Flavio Gomes - Gira Mondo

Flavio Gomes - Gira Mondo

É a elite, estúpido

No escândalo do Master, meu prazer é ver essa gente escrota apavorada; quanto a mim, posso tomar uma caipirinha quando quiser

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Flavio Gomes
mar 12, 2026
∙ Pago
Arte sobre folha de cheque antiga alterada (crédito: eu mesmo no Paintbrush)

Minha primeira conta em banco foi do Bamerindus. Tinha 19 anos, acho que menores de idade, antes, não podiam ter contas em banco. Apenas acho. A agência ficava na esquina da avenida Goiás com a rua Tiradentes, que morria num dos portões da GM, em São Caetano do Sul.

Nunca morei no ABC, mas tive de trabalhar lá um tempo. Meu pai havia saído da empresa em que trabalhava e com o dinheiro que recebeu resolveu entrar no negócio de águas minerais. Não me perguntem por quê. Logo arrumou outro emprego, no mesmo ramo anterior, só que no Recife. Foi para lá e largou o negócio das águas minerais na minha mão, o que beirava a insanidade. Eu estava na faculdade de Comunicações, queria ser jornalista, estudava de noite, e durante o dia cuidava das águas minerais: um depósito com escritório na rua Piauí (hoje é uma escola de inglês), motoristas de caminhão autônomos que entregavam os garrafões de policarbonato de 20 litros em empresas e residências e outros que atendiam repartições da Prefeitura de São Paulo, grande cliente, que ainda usava garrafões de vidro de 15 litros, pesados e decididamente frágeis, ou pelo menos manipulados com desleixo. Dezenas se quebravam por mês, mas a Prefeitura não pagava por eles — quando assinaram contrato, os antigos donos da empresa fizeram essa concessão porque o consumo era alto e, aparentemente, valia a pena absorver o custo dos garrafões quebrados.

Como gerente de uma firma de águas minerais em São Caetano no Sul, a mim cabia controlar as vendas, checar com quantos garrafões cheios e não vendidos os caminhões voltavam à sede, contabilizar as perdas e, de tarde, quando os entregadores estavam nas ruas, pegar uma Kombi e atender alguns clientes avulsos ali por perto, que era a parte que eu gostava — guiar a Kombi. Uma vez por semana, às sextas-feiras, enchia a Kombi de garrafões vazios e ia vistoriar os trabalhos na nossa fonte, que ficava numa serra de Mogi das Cruzes. Voltava com os garrafões cheios, para pagar a viagem. A gente remunerava os motoristas por garrafão transportado; se eu voltasse com 50 garrafões cheios, o valor desse transporte era economizado. O problema é que a estrada até a montanha onde ficava a fonte era de chão. E não era das mais trafegáveis. Para se ter uma ideia, as fábricas de automóveis usavam alguns trechos para, em segredo, testar carros que iriam entrar no mercado. Se não desmontassem sozinhos naquela buraqueira, já podiam ser colocados à venda. Vi Santana e Quantum antes que todo mundo. E Monza sedã. E algo que me pareceu um Escort, na época, mas não tenho certeza.

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