O Futebol
No fim da série “Só Copa”, uma ode à paixão, às injustiças e à imperfeição da vida
Certa feita, isso foi em abril de 2011, estava eu apresentando um programa de TV numa segunda-feira e o comentarista disse que o jogo da véspera não valia nada, que aquele campeonato não valia nada, que o importante era no mês que vem, que isso e que aquilo.
Interrompi meu colega — comentarista importante, inclusive; era quase um oráculo no canal. Ninguém ousava contestá-lo. Se dizia que não valia nada, era porque não valia nada.
Mas o interrompi. E, sendo até um pouco rude, perguntei: que direito você acha que tem de dizer o que vale e o que não vale? Quem lhe atribuiu tamanha autoridade?
Pois lhe digo, prossegui, diante de certo estranhamento pela interrupção incomum. Eu estava no jogo. Eu estava no jogo com meus dois meninos, um de dez e um de onze anos. O gol saiu aos quarenta e quatro do segundo tempo. O cara que fez o gol se chama Ananias. Ele correu na nossa direção e trepou no alambrado. No segundo tempo a gente sai de trás do gol dos vestiários e vai ver nosso ataque do outro lado da arquibancada. Não sei se é assim em outros estádios. Mas ele fez o gol, correu na nossa direção e trepou no alambrado. Meus meninos me abraçaram. Depois correram até onde conseguiram para gritar para o Ananias e para o Ananias saber que eles estavam lá. Saímos suados do estádio e no carro o mais novo disse que ia dormir mais leve aquela noite. O mais velho falou que chorou um pouquinho. Pediram para comer um hambúrguer lá perto de casa para comemorar. Nosso time nem precisava ganhar, mas ganhou aos quarenta e quatro do segundo tempo e se classificou para a outra fase no campeonato.
Pausa.
Meus filhos tiveram um domingo feliz. Disse isso olhando para a câmara.
Outra pausa.
Voltei-me ao comentarista famoso que ninguém contestava e perguntei: que direito você, ou qualquer pessoa, acha que tem de dizer que a felicidade de duas crianças não vale nada? Como é que alguém se imbui, e usei o verbo imbuir, tenho certeza, a prerrogativa de determinar o que vale e o que não vale sem olhar nos olhos de uma criança, sem receber o abraço de uma criança, sem respeitar o sentimento de uma criança?
Seguiu-se um breve silêncio e o outro colega, comentarista que estava no estúdio do Rio, bateu palmas e disse “bravo, bravo!”.
Eu tinha ficado genuinamente irritado com a presunção das palavras do comentarista. Que não eram só dele, mas de quase todo mundo na imprensa esportiva: aquele campeonato não valia nada, aquele jogo não valia nada, o Ananias não valia nada, a classificação do nosso time não valia nada, o rebaixamento do outro time não valia nada. Valia o que estava por vir, as duzentas rodadas prestes a se iniciarem, o time grande de um, o gigante do outro, as torcidas enormes, a camisa pesada, a verba de TV, o orçamento milionário, a puta que pariu.
Olhei para a câmera de novo.
Quando uma criança sorri ou chora, ela tem de ser respeitada, concluí. Ninguém tem o direito de dizer que o sorriso ou a lágrima de uma criança não valem nada. Ninguém.
Foi assim que, talvez pela primeira vez falando para um monte de gente que estava assistindo à televisão, acho que consegui explicar o que significava o futebol para mim. Ainda significa: o estádio está lá, nosso time segue jogando os campeonatos que, para os comentaristas famosos, não valem nada, meus filhos cresceram, mas ainda choram, sorriem e me abraçam. Ananias morreu, no voo da Chapecoense. Mas outros ananias e marcos antônios e ferdinandos e ednos vieram, outros gols foram marcados aos quarenta e quatro do segundo tempo, para nós e contra nós, caímos, nos levantamos, despencamos, nos erguemos. Ganhamos e perdemos. Mais perdemos do que ganhamos.
Isso é a vida. O futebol é a vida. Não é apenas uma metáfora da vida. É a vida.


É sempre chique citar o escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus para falar de futebol. Goleiro do Racing Universitaire Algérois na adolescência passada na Argélia, a ele é atribuída a famosa frase: “O que sei com mais certeza sobre moralidade e as obrigações do homem eu devo ao futebol”. Parece que não foi exatamente isso que disse, o final da frase teria sido “aprendi com o RUA”, mas ela foi dita a uma revista de ex-jogadores do time, e nesse caso dá na mesma — o RUA era seu time de futebol e o que mais aprendeu sobre a vida, resumindo, Camus aprendeu jogando bola.
Não há nada mais parecido com a vida do que um jogo de futebol é o que sempre digo citando Camus, ainda que ele nunca tenha dito isso. É uma adaptação livre de sua declaração de amor ao time que defendeu até contrair tuberculose, tendo de parar de jogar. Mas falou de futebol até o fim de seus dias e o futebol esteve presente em quase todos seus livros, e uma vez contou que ficou feliz da vida por ter sido reconhecido por um motorista de táxi em Argel não como o escritor que ganhara o Prêmio Nobel, mas como o ex-goleiro do RUA. Provavelmente estava mentindo — quem reconheceria décadas depois o goleiro de um clube universitário que jogou só até os 17 anos? Mas era uma forma de declarar, mais uma vez, seu amor ao esporte. Que ele prezava mais do que a literatura e a filosofia. Ou, no mínimo, colocava no mesmo patamar.
Um jogo de futebol aprisiona o tempo, e por isso é tão parecido com a vida. Tem começo, meio e fim. É a vida concentrada em noventa minutos, e perdoem-me se desconsidero os acréscimos. A ele, jogo, chegamos como à vida. Olhamos para ele, o jogo, e para ela, a vida, sem ter a menor ideia do que nos espera. Mas sabendo que naqueles noventa minutos — naqueles anos que nos cabem viver — tudo se passará. Tudo: a dúvida, a esperança, o júbilo, a irritação, a certeza que dura pouco, a incerteza que dura muito, a alegria incontida, o alívio, a dor, a tristeza profunda que parece infinita mas passa, o gozo, a explosão, o tédio, a desilusão, o final feliz que nunca é permanente, assim como o final trágico tampouco o é — porque, como no mito de Sísifo, a pedra sempre vai rolar de volta, pela eternidade; e mesmo sabendo que ela vai rolar de volta, lá estaremos no jogo seguinte, e se perdermos teremos de rolar a pedra novamente para o alto; se ganharmos, sabemos que ela vai rolar de volta um dia, e Camus escreveu: “É preciso imaginar Sísifo feliz”; e é tudo que buscamos, ainda que seja bem absurda essa busca, pois que a pedra voltará por toda a eternidade.
A felicidade num jogo é efêmera, pode se esvair no segundo seguinte, sabemos disso, e a vida é exatamente assim. O futebol é um jogo de muitos erros e poucos acertos. Um jogo em que se erra muito para acertar uma hora, sem garantia de que seu acerto garantirá “o brilho da eternidade em um minuto que gostaríamos de esticar por toda a extensão do tempo”.
E é isso que faz do futebol o jogo mais fascinante jamais inventado, por sua semelhança com o que vivemos do momento do nascimento à morte. O jogo em que o mérito não resulta obrigatoriamente em sucesso. O jogo em que um time busca a vitória o tempo todo, mas não marca; e toma um gol aos quarenta e quatro do segundo tempo e é rebaixado, eliminado, desclassificado, na maior injustiça que a humanidade já viu. O jogo mais imperfeito de todos, pois que não basta jogar bem, não basta fazer tudo certo, o desfecho depende do acaso, que às vezes nos protege, por outras nos abandona. Sentir tudo isso em noventa minutos é sempre, sempre, sempre um concentrado de vida. E quando acaba, o que resta é respirar fundo, olhar a pedra e a montanha e começar tudo de novo.
Por isso, acho, que meu encanto com o futebol tem sofrido alguns baques ultimamente. Há um esforço coletivo para eliminar suas imperfeições e suas injustiças, driblar o acaso e tornar os noventa minutos mais previsíveis e menos incertos com o uso da tecnologia, dos sensores, das linhas traçadas por computadores, dos julgamentos feitos por máquinas.
O futebol era o que restava da vida apartada das telas, mas a vida parece que está cada vez mais nelas, e pode ser que a intenção seja justamente essa: se o futebol tem de ser parecido com a vida, que seja parecido com a vida que se vive nas telas — e que levará a espécie à extinção. Quer-se um futebol infalível, imune aos erros humanos. Imune aos humanos. Imune a nós. Algo que, em algum momento, que não sei quando será na nossa linha do tempo, acabará por se transformar em sua ruína.
A Copa do Mundo terminou um pouco nesse tom, com a vitória da previsível, entediante e mui eficiente seleção espanhola diante da imprevisível, caótica e fascinante Argentina. Mas mesmo com os chips, as câmeras e a confiança cega no universo virtual, foram escritas belas histórias humanas nestes quase quarenta dias. Poderia listá-las, mas ficaria cansativo e repetitivo — escolham seus personagens e relembrem: Vozinha, o irmãozinho de Lamine Yamal, a foto dele bebê sendo banhado por Messi, o gentil e emotivo Scalone, o técnico do Egito clamando pela Palestina, os bravos atletas do Irã, o árbitro da Somália, os remadores noruegueses, os ingleses cantando Oasis, a faixa das Malvinas, os alemães abraçados com os jogadores de Curaçao, teve vida, muita vida, resistindo aos desejos dos que querem fazer do jogo de bola algo cada vez mais diferente dela, a vida.
Vida que, apesar de tudo, ainda vale a pena. Sábado estaremos, eu e meus meninos, no nosso estádio de sempre para viver o que sempre vivemos. E é sempre bonito. Sabemos que, aconteça o que acontecer, sairemos de lá ao final de mais noventa minutos de vida empurrando a pedra para o alto da colina. Ela vai rolar de volta, mas não faz mal.
A gente empurra outra vez.







Flávio, já conversamos online, já me entrevistaste por conta de um texto meu, certa vez, há quase uma década. Nessas idas e vindas, sempre me emociono com teus textos e comentários. Aqui ou em outras redes. Com esse O Futebol, reacendeste um pouco da paixão que ainda existe aqui, em algum canto desse coração desencantado, onde vive um menino de dez ou 12 anos que é um apaixonado pelo jogo de bola. Obrigado!
Quanto mais vivo o futebol, e não apenas o assisto, melhor percebo que não existe só um futebol. Este em que se vive junto, independentemente de estar do lado de fora do campo, e aquele em que somente se é espectador do que te dizem. Este em que se constrói a narrativa, porque ela serve de marco na linha do tempo das nossas vidas. Este em que se lembra tanto de como foi o grito de gol quanto de como foi o lance do gol. A gente sabe onde estava e quem era naquele instante que viveu, não só que viu.
Muito obrigado pelo texto e pelo sentimento compartilhado nele, Flávio. No próximo Portuguesa x São José (espero que na A1, por favor), faço questão de pagar uma cerveja pra agradecer. Um abraço.