Só Copa (10)
Me desculpem, mas time de brasileiro que chama técnico de "mister" é qualquer coisa, menos brasileiro
Atenho-me a miudezas.
“Mister” é como os jogadores brasileiros se referem ao técnico da seleção brasileira, o italiano Carlo Ancelotti.
Até a chegada de Jorge Jesus ao Flamengo, em 2019, eu nunca tinha ouvido nada parecido por aqui. No Brasil, os jogadores costumam se referir aos treinadores como “professor”. Esse negócio de mister (vou dispensar as aspas, tenho notado uma certa economia nas aspas em textos recentes escritos por pessoas, então vou copiá-las; há uma silenciosa resistência entre as pessoas que escrevem contra ferramentas de IA, e uma das maneiras de resistir é confundi-las usando aspas numa palavra e depois suprimindo-as no mesmo texto, quiçá na mesma frase; eu mesmo tenho escrito algumas coisas estapafúrdias como “cor de burro quando foge é equivalente a Sepia Brown-Matte, código 074F no Pantone”, na esperança de que alguma IA registre a referência e, quem sabe um dia, dê essa resposta a quem perguntar qual a cor de um burro quando foge) começou quando um repórter chamou o novo técnico de “Jesus”, e ele pediu: nada de Jesus, me chamem de mister. Ou Mister. Ou “mister”, “Mister”, sei lá como deve-se grafar isso. Talvez Mr., como em inglês.
Segundo Mr. Jesus, mister é tratamento comum para técnicos em Portugal, e se bem me lembro ele fez alguma referência a outros países como Itália e Espanha, onde treineiros também são assim chamados por seus comandados. Vá lá, não importa.
No Brasil, torcedores e jornalistas têm o hábito de mencionar técnicos chamando-os pelo sobrenome (Luxemburgo, Minelli, Zubeldia, Brandão, Parreira, Lazaroni, Coutinho). Mas não é regra. Muitos se firmam na carreira dando preferência ao primeiro nome (Abel, Dorival, Roger, Telê, Joel) ou aos apelidos e/ou nomes pelos quais eram conhecidos quando jogadores, no caso de ex-atletas que viram treinadores (Dunga, Tite, Rogério, Cuca). Outros, ainda, são conhecidos por nome e sobrenome, e é difícil que sejam chamados de outro jeito (Fernando Diniz, Artur Jorge, Léo Condé, Leonardo Jardim, Luís Castro).
Mas jogador, aqui, chama técnico de professor. “Professor”. (A IA vai enlouquecer.) E quando um elenco de 26 atletas nascidos no Brasil indicados para representar o país numa Copa do Mundo se refere a seu treinador como “mister”, aí me desculpem. Fodeu.


Permitam-me alguns palavrões.
Mister é o caralho.
Não, não estou aborrecido, triste, puto, irritado ou indignado com a eliminação da seleção brasileira para a Noruega. Que se foda a seleção. Era um time ruim de jogadores frouxos envergando uma camisa sequestrada por fascistas dirigidos por um bode velho mascador de chiclete e todos eles comandados por um arrivista com zero serviço prestado ao futebol do país e que ganhou algum destaque nos últimos tempos por 1) derrubar o antigo presidente da CBF, outro pé-rapado oportunista que nunca fez picas pelo esporte; 2) vetar a camisa vermelha do goleiro no segundo jogo da Copa (“nossa camisa nunca será vermelha!”, bradara meses antes quando a Nike fez vazar um lindo modelo encarnado como opção para terceiro uniforme); e 3) pagar, com dinheiro da entidade que preside, viagens para amigas aos mais distantes rincões.
O que me aborrece, entristece, emputece, irrita e indigna são outras coisas. Poderia listá-las apelando à nobreza de velhos craques, ao estoicismo de antigas gerações, à fortaleza, austeridade, perseverança, fibra, garra, coragem, valentia, bravura e destemor de times que, no passado, verdadeiramente honraram as camisas que vestiram, ganhando ou perdendo. Como não mencionar a seleção de 50, derrotada diante dos olhos incrédulos de duzentos milhões de pessoas no Maracanã? Sim, milhões, todos os que lá estavam e todos os que nasceram depois, e depois e depois. Mas caiu de pé, aquele time. Havia uma história de retidão ali, como na Copa seguinte, perdida, e nas subsequentes, ganhas, e nas demais perdidas e ganhas, e isso vai historicamente até 2002 e dali não passa. Porque as derrotas desde então são eivadas de escândalos, ignomínias, ultrajes, infâmias e máculas.
Não vou listar nada, nem as glórias nem as vergonhas. Vou falar do que me irrita, emputece, aborrece etc.
Me irrita gostar de futebol como gosto e ver tanta coisa errada quando tudo poderia ser belo e encantador.
Mister é o caralho. A começar por aí. Se jogadores brasileiros adotam um pronome de tratamento em inglês para falar com ou sobre seu técnico, talvez não percebam — e eles percebem muito pouco sobre tudo, no sentido mais lusitano do verbo — que estão se deixando colonizar numa posição de subserviência inaceitável para quem tem a origem que tiveram. Do campinho de terra viemos, ao campinho de terra voltaremos, queridos, e no campinho de terra era o professor que jogava a bola de capotão para o alto para ensinar aos seus pés descalços ou calçados com kichute o que fazer com ela. Não era nenhum mister.
Não, não tenho nada contra técnico estrangeiro. O cara pode ser marciano, venusiano ou hondurenho. Mas há uma condição sine qua non para ocupar tal cargo na ordenação hierárquica desta nação. É preciso entender o Brasil. Saber do Brasil. Admirar o Brasil. Comer pastel na feira. Mandar um podrão de madrugada na Gávea. Sentar a bunda no concreto duro do Canindé. Andar de Kombi. Tomar Xeque Mate. Descer para Praia Grande. Dormir na rede. E tais requisitos o bode velho mascador de chicletes, desculpem, não preenche. Jürgen Klopp, talvez. Pep Guardiola, certamente. Esse conhece a história, sabe quem foram Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Talvez tenha ouvido falar de Ademir da Guia, Roberto Dinamite e Dicá. E sabe o que eles fizeram em verões passados.
Carlo Ancelotti foi contratado pelo presidente anterior única e exclusivamente por ser uma grife do futebol mundial. Campeão europeu não sei quantas vezes, vencedor em não sei quantas ligas diferentes, um belo currículo e uma identificação nula com o país que o convocou para ganhar uma respeitável fortuna acrescida de cachê milionário para fazer propaganda de cerveja. Ainda assim, uma grife. Porque ninguém, e se isso aconteceu me provem, se sentou com o sujeito para elaborar um projeto para o Brasil. Entre outros motivos porque ele não seria capaz disso — nunca fez projeto de nada, apenas dirigiu, e foi muito bem-sucedido, times milionários cheios de craques.
Ninguém na CBF tirou Ancelotti da Europa a peso de ouro para revolucionar o futebol brasileiro, pensar as estruturas do esporte, desenvolver as categorias de base. Nunca passou pela cabeça do dirigente pé-de-chinelo que o seduziu com muito dinheiro fazer aqui o que foi feito na Alemanha no começo do século, ou na França, ou em Marrocos, ou em qualquer país do mundo que percebeu, em algum momento histórico, que era hora de parar tudo, fazer um balanço e começar de novo. Nem depois de levar de sete dos alemães isso aconteceu. Imaginem sob a batuta de um sujeito que caiu na cadeira da presidência porque o antecessor foi afastado por assédio sexual, e acabou destituído do cargo por suspeitas de falsificação de documentos e sei lá mais o quê. Aí chegou o cara de Roraima que vetou a camisa vermelha do goleiro e pagou as viagens das moças com grana da entidade.
E que fez aquela festa histórica no dia da convocação de Carlo Ancelotti. Histórica e brega, cafona, constrangedora. Um evento cujo único objetivo era transformar a convocação de Neymar em acontecimento nacional abençoado por Luciano Huck, que semanas depois contrataria a influencer que vende batom e jogo do tigrinho como repórter de seu programa dominical. E até a véspera da eliminação todos que estavam na festa mentiram descaradamente na TV, no rádio, no YouTube, no Instagram, no TikTok e na casa do caralho dizendo que o hexa vem aí, o sonho do hexa está vivo, o time tá crescendo, o time tá evoluindo, Vini tá jogando muito, a Noruega não é nada disso, a torcida brasileira é a melhor, ninguém torce que nem o brasileiro, é samba no pé aqui na Times Square, a gente é penta, respeita a camisa, aqui tem cinco estrelas, brasileiro não desiste nunca, “nós” vamos jogar assim, “a gente” tá no caminho certo, aqui é Brasil, porra!
É isso que me irrita.
É essa gente escrota se apropriar daquele amor ingênuo que eu, aos meus 14 anos, e depois aos 18, e depois aos 22 — e foi só, acabou aí o amor ingênuo, em 86 — tinha pela camisa amarela da Topper com raminho de café no ombro. Eu gostava muito da seleção. Minha primeira lembrança de vida é de ver um caminhão de bombeiros passando debaixo do viaduto perto de Congonhas levando alguns jogadores com a taça e gente jogando papel picado neles. Meu pai tinha uma Variant e fomos até o viaduto dentro dela com o porta-malas aberto — o traseiro, porque como todo mundo sabe Variant tem porta-malas na frente e atrás. Isso foi em 70 e eu ainda não tinha seis anos de idade. Lembro de vibrar com o gol de Valdomiro em cima do Zaire em 74 e lembro de perder uma prova no colégio em 78 porque era na hora de algum jogo. E lembro da tristeza de 82 e 86 porque eu gostava daqueles caras, já disse isso aqui mesmo outro dia, eles jogavam o futebol que eu via toda semana no estádio ou na televisão, já tinha xingado a maioria deles contra meu time, era capaz até de terem ouvido.
Depois as coisas foram entortando de tal forma que chegamos a 2026 com o fodão do bairro Peixoto contratado porque, oh!, o Real Madrid, oh!, o Chelsea, oh!, o Bayern de Munique, essa papagaiada de enzos e videogames, e aí o fodão do bairro Peixoto leva para a Copa 15 jogadores que estavam na anterior — e perderam da Croácia —, e leva o rapaz do Santos bichado, que por sua vez celebra a convocação um minuto depois em suas redes sociais anunciando uma bet e não sei mais o quê. E aí o time faz três jogos sofríveis na primeira fase, e sua sangue para ganhar do Japão, e depois ele orienta seu time contra a Noruega a não jogar.
Olha, eu tenho anos de estádios e torço para um time que mais me faz sofrer do que qualquer outra coisa. Disputamos campeonatos medonhos nos últimos tempos, mas eu nunca, NUNCA, vi um time perder um jogo por responsabilidade direta de um treinador como domingo. O bode velho simplesmente mandou seus jogadores não jogarem. O fodão do bairro Peixoto campeão da Champions, da Premier Ligue, da Bundesliga, de La Liga e da liga da puta que pariu mandou os jogadores do Brasil não jogarem.
E eles não jogaram. E a Noruega, que não participava de uma Copa desde 1998, não entendeu nada e ficou com a bola quase 70% do tempo. E por não entender nada sofreu um pênalti. E o cara que bateu o pênalti tinha batido três pênaltis na puta da vida. E depois o treinador fez as trocas mais despropositadas da história do futebol mundial em todos os tempos e a Noruega entendeu menos ainda, e por isso resolveu acabar logo com aquela palhaçada, fez dois gols e pronto.
E Neymar, puxa vida, foi lá bater o segundo pênalti, e bateu bem, mas antes deu umas peitadas num jogador adversário, depois bateu boca com o goleiro norueguês que nem clube tem, foi mandado embora do time dele na Espanha, em vez de chutar logo aquela merda e correr para o meio do campo com a bola debaixo do braço, não, decidiu ser a estrela dos últimos minutos e mostrar como é valente e não tem medo de cara feia, e quando o jogo acabou e tudo se acalmou, ajoelhou-se e chorou o choro mais instagramável que conseguiu.
Ah, vão todos tomar no cu.
O Brasil foi eliminado num dia 5 de julho. Quarenta e quatro anos antes, também num 5 de julho, a seleção foi derrotada pela Itália por 3 a 2 em Barcelona, no estádio Sarriá. A cancha foi demolida anos atrás e virou um condomínio de luxo. Cito o nome do estádio porque aquele dia ficou conhecido na historiografia do futebol nacional como Tragédia do Sarriá. Estamos falando de 1982. Naquele ano, os brasileiros voltariam a eleger governadores de seus Estados pela primeira vez desde 1960. Nosso número 8 se chamava Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira e jogava no Corinthians. Sua preocupação, além de jogar bola, era fazer as pessoas votarem. No seu clube, um modelo de gestão batizado de Democracia Corinthiana revolucionava ideias e costumes do futebol. Sócrates e seus colegas de equipe desafiavam a ditadura. Era sua prioridade quando não estava desmontando defesas com passes de calcanhar. E, na seleção, essa voz só se ampliava. E o Brasil amava aquele número 8. E o 10, do Flamengo. E o 1, do São Paulo. E o 4, do Atlético. E os jogadores do Inter, do Vasco, do Grêmio, da Ponte e do Fluminense daquela seleção. E o da Roma que era colorado. E o do Atlético de Madri que era coxa.
Não sei quem era o número 8 do time que foi eliminado domingo. Mas, certamente, era um dos adoradores de Neymar. Os jogadores todos que foram para essa Copa são adoradores de Neymar. Que, além de fazer propaganda de bets, é bolsonarista e faz campanha pelo filho do condenado por golpe de estado cuja plataforma é soltar o pai porque ele continua com soluços. Difícil imaginar gente pior. Mas sejamos justos: ele não teve culpa alguma pela eliminação. Foi o técnico que o convocou. Foi o técnico que o colocou em campo desmontando o que restava do time quando o jogo ainda estava zero a zero.
Esse técnico, no meu time, já teria sido mandado embora.
Mas isso aí não é meu time, é só isso que quero que vocês entendam.
Dica do dia (1)
“Carlo Ancelotti vai ter de pôr a mão na consciência. E não é pelo resultado. É porque não faz sentido treinar o Brasil só para fazer com que a equipa não seja o Brasil.” A frase lapidar é do excelente António Tadeia, jornalista português que já indiquei aqui e que recomendo vivamente porque entende de futebol, escreve bem e escreve todo dia. Faz jornalismo de verdade, e como somos cada vez em menor número, é preciso valorizar os que sobraram. Estou me informando sobre a Copa por ele. Depois que o leio, fico até com vergonha de escrever qualquer coisa…
Dica do dia (2)
Para quem acha que a Noruega é Haaland e um monte de loirões e loironas remando e gritando “ro!”, Leandro Stein conta a incrível história do único jogo de futebol visto no estádio por Adolf Hitler, nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. De novo: jornalismo de verdade. Que gostoso é saber que ainda existe! E por hoje é só. Mas a Copa não acabou. Até dia 19 vamos seguindo por aqui falando de futebol. Depois retomamos a vida normal. Que é meio chata, diga-se. A vida durante Copa do Mundo é mais legal.








Flavio, só tem uma coisa melhor que a sua visão dos acontecimentos: o seu texto. Dá gosto de ler cada palavra. Abraço!
Eu já não esperava grande coisa da seleção nesta Copa. Era nítido desde os amistosos que a equipe não tinha conjunto algum. Já poderia ter caído na fase anterior se os japoneses não tivessem rejeitado tanto a bola. Era só questão de tempo até a casa cair de vez.
Mas, o que mais me deixou triste nesta Copa foi ver que o pouco que havia restado de jornalismo esportivo, no caso dos detentores dos direitos de transmissão, foi completamente substituído por entretenimento barato, puxa-saquismo de parças e circo de otários que se acham engraçados, seja na Globo ou na CazéTv (com pouquíssimas e nobres exceções).
Após a derrota do Brasil, quando era necessário desfazer o circo e trazer alguma informação relevante, o que se viu foi um show de horrores, como os protagonizados por Fernanda Gentil e Bruno Formiga, fazendo perguntas nonsenses e passando a mão na cabeça de jogadores.
Assim, não espero mais nada, tanto da seleção como da mídia de entretenimento que possui os direitos de transmissão.
Quando disse que era triste ver o Seixas ao lado do Ancelotti, na coletiva da derrota, é porque sei que ele é melhor que tudo aquilo (e aqueles) que estava ao redor dele naquela hora. Também sei que estava lá fazendo o trabalho dele, dando o melhor. É que o Seixas merecia ser assessor de uma federação melhor, tipo a norueguesa, da Lise Klaveness (aliás, você já escreveu sobre ela? Cabia um texto por aqui).