Só Copa (11)
“Tu finish” entrará para a história como a sentença mais acertada de todos os tempos
Não sei exatamente quando foi que Jorge Jesus dirigiu Neymar. Foi por esses dias, recentemente. Depois que essas figuras se aventuram pelo mundo árabe, meio que perco as referências temporais.
Fora desse universo arenoso, é-me costumeiro associar grandes transferências a temporadas bem específicas, sem que erre as datas. Enéas foi para o Bologna em 1980. Como me lembro? Me lembro porque foi quando decidimos o primeiro turno do Paulistão com o Santos, e isso foi em 1980. Raí voltou ao São Paulo em 1998, e me lembro porque veio direto para a decisão do campeonato contra o Corinthians, que tinha nos roubado na semifinal comprando um juiz argentino, aquele desgraçado. Roberto Dinamite defendeu o Campo Grande em 1991, e lembro bem porque junto com ele foram o Elói e o Cláudio Adão, que também brilharam no Canindé e estavam todos em fim de carreira.



Agora, nas arábias, desculpem... Não me perguntem quando Jorge Jesus foi para lá, nem Neymar, nem Cristiano Ronaldo, nem ninguém. Foi por esses dias, recentemente, isso basta.
Também não sei direito os nomes dos times. São todos Al-Alguma Coisa. Al-Hilal, Al-Bilau, Al-Nasser, Al-Cachofra, Al-Guma Coisa. Por mais que os sauditas & seus vizinhos invistam grandes cifras em grandes nomes, considero encerradas, para todos os efeitos, as carreiras de jogadores e técnicos que deixaram seus clubes e países na Europa e na América do Sul para encher o rabo de dinheiro em times que pertencem a xeiques extravagantes, fundos soberanos de investimento e monarquias hereditárias. Tudo regado a petróleo, autoritarismo e Alá meu bom Alá.
Já foi diferente. Quando Rivelino foi para aquelas bandas, em 1979, seu nome tinha só um “L”. E o campeonato saudita tinha começado a ser disputado três anos antes. Riva vinha de três Copas seguidas e jogava no Fluminense. Seu passe foi comprado por 200 mil dólares. Era o primeiro ano em que estrangeiros seriam aceitos no futebol local. Zagalo, que também só tinha um “L”, era o técnico do time, um Al-Desses Qualquer. (OK, eu sei qual era, o Al-Hilal. Rivellino ficou por lá três anos, jogou 57 partidas, fez 23 gols e ganhou dois títulos.)
Tudo que o craque bigodudo pediu para o príncipe que o contratou — além de um bom salário e escola para as crianças — foi uma Mercedes. Ganhou. “Aqui no Brasil a gente renovava contrato e dava para comprar um Fusca. Meu sonho era ter uma Mercedes e eu pedi. Eles deram risada, perguntaram qual eu queria e eu disse que qualquer uma”, lembrou o velho Reizinho do Parque em entrevista alguns anos atrás.
Imaginem jogar na Arábia Saudita em 1979. Aquilo sim era aventura. Calor infernal, clima desértico, camelos, beduínos e areia. Não jorrava dinheiro como agora. Rivellino estava com 33 anos quando foi, o que na época era fim de carreira. Depois dos 30, qualquer jogador era considerado velho. Fez um pé-de-meia e quando voltou, em 1981, chegou a flertar com o São Paulo. Jogou um amistoso pelo Tricolor contra a seleção da Arábia Saudita diante de menos de 3 mil pessoas no Morumbi, e disso me lembro porque saiu na “Placar” e eu não perdia a revista uma semana sequer. Aí decidiu parar de jogar. Seu passe (vocês sabem o que é “passe”, né?) ficou preso no Al-Hilal para sempre, mas não por maldade, é que ele resolveu se aposentar, mesmo. Se precisasse, o príncipe liberava para outro clube.
Hoje não tem camelo, nem areia, nem beduínos, odaliscas ou árabes malucos com adagas na cintura como a gente imaginava naqueles tempos, se perguntando como alguém como Rivellino tinha tido a coragem de se mandar para mundo tão esquisito. Teve uma Copa lá perto em 2022 e em 2034 será lá mesmo, onde Riva jogava, que o Mundial será realizado. E foi lá, para voltar a Jorge Jesus e Neymar, que o primeiro apontou o dedo para o segundo e decretou, em frase direta, objetiva e bilíngue: “Tu finish”.
Devo dizer que duvido um pouco da descrição que o treinador fez do momento em que avisou a Neymar que ele estava acabado. Ela foi feita, a descrição, na entrevista coletiva que apresentou Jesus como novo técnico da seleção de Portugal, semana passada. Não faz sentido um diálogo nesses termos, como se fosse um encontro entre Tarzan e Jane, ambos com compreensíveis dificuldades de comunicação. Técnico e atleta são nascidos em países que falam a mesma língua, creio que o primeiro teria todas as possibilidades de se fazer entender sem usar palavras em inglês. Não, não deve ter acontecido assim. Sei que Jesus dispensou Neymar de um torneio porque o rapaz não se encontrava na forma física adequada, e tal decisão acelerou o processo de retorno do atacante para o Brasil e para o time que o revelou.
Muita gente por aqui avaliou como deselegante a menção de Jesus a Neymar numa apresentação diante da imprensa portuguesa. As pessoas se melindram à toa. Havia contexto. Alguém perguntou sobre a continuidade de Cristiano Ronaldo na seleção, e o técnico apenas usou o brasileiro como exemplo para reafirmar o que costuma dizer, que não escala ninguém pelo nome ou pelo passado. Se o sujeito não pode ser útil ao grupo que dirige, resta colocar o dedo em seu peito e repetir: tu finish.
É fácil e tentador falar mal de Neymar. Ele faz por merecer as muitas críticas à maneira pela qual conduziu, e já podemos falar no passado, uma carreira que poderia ser realmente brilhante e edificante. Em vez disso, teve lampejos em campo e uma atividade extra-curricular bem mais rumorosa fora dele. Não é preciso, de novo, fazer listas. Corre-se o risco, sempre, de cair num moralismo barato ao relacionar seu ocaso a festas, mulheres, mansões, carrões, iates, penteados e relógios.
Tenho lá minhas restrições, sobretudo estéticas, a determinadas mansões e carrões. Suas escolhas para gastar a fortuna que arrecada, porém, são pessoais e não cabe a ninguém contaminar análises esportivas com gostos pessoais. Seu comportamento, porém, é público e amplamente exposto pelo próprio em suas redes sociais, o que o submete ao escrutínio permanente de torcedores, fãs, inimigos, jornalistas, todo mundo. E eu, se é que minha opinião importa, sempre achei o rapaz um bobalhão.
Vem de longe, tal percepção. Em abril de 2010, com 18 anos, Neymar deu sua primeira grande entrevista a um veículo de imprensa tradicional. Foi ao “Estadão”, para a repórter Débora Bergamasco, publicada na coluna de Sonia Racy. Está aqui na íntegra para quem quiser entender o Neymar de 16 anos depois. Na época eu era comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil. Impliquei com a sequência de respostas às perguntas sobre as eleições do final daquele ano. Primeiro, a repórter quis saber se ele havia tirado seu título de eleitor. “Não tirei. Nem queria, mas vou ter que tirar”, respondeu a estrela ascendente do Santos. Então, Bergamasco perguntou se ele sabia quais seriam os candidatos à presidência. “Não sei, não”, falou.
“É uma ameba”, comentei na TV, em tom jocoso, agressivo e, aí sim, muito mais deselegante, indelicado e ofensivo que Jorge Jesus. A entrevista toda traçava um perfil, pelas respostas de Neymar, de um novo tipo de jovem que emergia naquele Brasil de 2010. “O que pensar disso tudo? Que talvez não seja descabido ver nesse mundo infantilizado de fantasias e clichês de consumo a nossa ‘Neverland’. Há, inclusive, algo da figura etérea de Michael Jackson na arte de Neymar. E, se existe hoje algo como um ‘brazilian dream’, ele poucas vezes esteve tão bem caracterizado como aqui, em ‘Neymarland’. Há no país 37 milhões de jovens de 16 a 24 anos. Metade deles não estuda. Pergunte o que gostariam de ser ou de ter sido. Quantos deles responderiam ‘Neymar’?”, escreveu então Fernando de Barros e Silva na “Folha” — Fernando está hoje na “piauí” e é um dos mais lúcidos analistas de política do país; são-paulino fanático, conhece futebol e não é pouco.
Fui, como disse, insultuoso, descortês e grosseiro com um menino de 18 anos num programa de TV porque me irritei com seu descaso pelo futuro do Brasil naquele ano de Dilma x José Serra e polarização PT-PSDB, tema que julgava importante para qualquer pessoa. Me parecia inaceitável tamanha alienação, mesmo num jovem adolescente. Mas isso não me dava o direito de chamá-lo de ameba nem de coisa nenhuma. Muito mais certeiro foi o técnico Renê Simões alguns meses depois, numa entrevista após derrota do time que dirigia, o Atlético de Goiás, para o Santos na Vila Belmiro. Seu desabafo, transformado em profecia, é lembrado a toda hora quando se fala sobre a trajetória de Neymar. “Alguém precisa fazer alguma coisa, porque está-se criando um monstro no futebol brasileiro. Nunca vi alguém tão mal-educado e desrespeitoso”, falou o treinador. Está aí embaixo para quem quiser ver.
Passaram-se 16 anos. Neymar não virou o que dele se esperava. Contemporâneos, como Messi, Cristiano Ronaldo e Mbappé, para ficar apenas em alguns nomes com idades próximas, sim. Deram títulos importantes aos seus clubes e seleções e são admirados pelo que fazem em campo. Fora dele, também. Mbappé tem posições fortíssimas, por exemplo, sobre as casas de apostas — Neymar colocou no ar propaganda de uma segundos depois de ser convocado. CR7 cuida de seu corpo com um rigor espartano e obsessivo — Neymar vai a camarote na Sapucaí com a perna engessada. Messi se deprime tanto com uma derrota da Argentina que chegou a dizer que abandonaria a seleção depois de perder uma Copa América para o Chile em 2016 — Neymar foi passear na Disney depois da eliminação do Brasil para a Noruega e se inscreveu num torneio de pôquer em Las Vegas.
Não gosto de Neymar e de fato acho o rapaz uma ameba, algo que já pode ser dito hoje com menos remorso, ainda que persistam os traços de vulgaridade na escolha da palavra. E é uma pena que tenha virado o monstro profetizado por Renê Simões. Se tem uma coisa gostosa de ver no futebol brasileiro, ou pelo menos foi em algum momento da história, é a criatividade, a habilidade, o talento e a capacidade de improviso de seus jogadores. Quando Ronaldinho Gaúcho caminhava para o fim de sua exuberante (mas não muito longeva) carreira, Neymar brotava das entranhas da Vila. Era a prova cabal de que no Brasil havia mesmo uma fonte inesgotável de craques e malabaristas da bola, de que esta era a terra da alegria do drible, da ousadia dos que tentam algo diferente, aqueles clichês todos — muito verdadeiros, diga-se. Achei, quando Neymar estava voando no Barcelona, que em breve ele entraria no ranking dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos logo abaixo de Pelé. Vê-lo jogar naquele time era um deleite.
Mas durou pouco. Causa uma sensação enorme de desperdício vê-lo discutindo com o goleiro da Noruega depois de marcar um gol inútil de pênalti, para depois forçar um choro de redes sociais no gramado.
Enquanto isso, Messi se emociona de verdade entre os seus, comandado por um treinador que diz que os churrascos dos jogadores são a coisa mais importante de sua seleção. E eles se divertem cantando no vestiário, como fazem também os ingleses junto ao seu torcedor na arquibancada, abraçando-o com os versos de “Wonderwall” e sendo abraçados de volta. E os noruegueses se divertiram remando. E os franceses, dançando no gramado com seus sorrisos largos e as bocas escancaradas cheias de dentes.
O futebol da seleção brasileira nos últimos anos se resume às lágrimas de Neymar, que se converteu numa figura triste e melancólica quando poderia ter se tornado a expressão mais pura da molecagem com a bola que tanto encantou o mundo lá atrás com Pelé, Mané & companhia bela. Perdemos a graça completamente. A imprensa internacional se espanta com a transmutação de nossos jogadores em fiéis reunidos em oração como se estivessem num culto depois de cada jogo, sem cavaquinho, pandeiro e tamborim. Cadê aquela alegria? Cadê o samba, o pagode, o batuque? Teremos virado definitivamente a terra do louvor, dos rostos crispados, do coro de aleluia?
Neymar finge que chora, o técnico gringo masca chiclete e se manda para o Canadá, o líder do grupo desaba em soluços e é consolado por repórteres que se comportam como se fossem pastores — alguém escreveu isso sobre essa imagem aí em cima, patética —, o avião da CBF que um dia chegou abarrotado de muamba ao Galeão (até nisso éramos mais criativos) pousou no Rio com um jogador, um só, um único entre os 26 que disputaram a Copa, e ninguém estava esperando por eles.
E é aí que a sentença de Jorge Jesus faz mais sentido, numa alegoria em que Neymar é o Brasil, e sendo assim é para todos nós que o técnico português está apontando o dedo. Tu finish, meu irmão.






Como escreve bem esse sujeito! Inveja.
Tive, como você, a sensação lá atrás que Neymar poderia ser um craque de verdade... Infelizmente, a má formação social dele, embalado por um pai que beira a ser inescrupuloso, o tirou do panteão das estrelas que ele poderia ter alcançado. Temos uma seleção, há muitos anos, formada por atletas sem o equilíbrio mental, sem a vontade e sem o entendimento do seu papel no constructo social nacional. Como ouvi há pouco, temos uma "seleção CLT", onde atletas batem ponto e apenas cumprem - ou pensam que cumprem - seu contrato de trabalho de forma tecnicista, sem emoção real, sem envolvimento com o público que, nas arquibancadas, são uma elite branca com musiquinhas bestas e imbecis - extremamente distantes das centenas de milhões de brasileiros e brasileiras longe dos estádios. Enfim, não é simples corrigir isso, não bastam as soluções simplistas que sempre surgem como a de que o país precisa investir em categorias de base. Temos um problema de nação - quer eu gostando ou não desse termo pela minha formação anarquista -, um problema do capitalismo exacerbado, um problema da idolatria vazia pelo "sucesso". Sobre o Ancelotti, posso estar MUITO errado, mas parece que ele quis, no jogo, criar uma surpresa para Noruega não ficar fechada lá atrás (como estava ocorrendo em outros jogos da fase). Parece que ele queria deixar a bola com a Noruega e roubar lá na frente e fazer o gol no contra-ataque. Mas o time não respondeu a isso e ele foi incapaz de mudar o esquema tático durante o jogo, o que demonstra relevante incompetência dele. Enfim, perdemos e a CBF lançou um inútil vídeo motivacional para 2030 (que aguardo ansioso uma análise de FG) - bora perder de novo!