Só Copa (7)
Num Mundial de bons uniformes, o da Noruega humilha a concorrência
A seleção da Noruega está fazendo um sucesso danado nesta Copa por causa de sua torcida. As imagens dos noruegueses simulando remadas em embarcações viking têm rodado o mundo. E eles remam em qualquer canto. Sentados no asfalto na Times Square, nas escadarias do metrô, nas arquibancadas, desconfio que até antes de dormir, na cama do hotel. A coisa ganhou tal notoriedade que na vitória sobre Senegal, segunda-feira, os jogadores foram até a beirada do campo e imitaram os torcedores.
Foi a glória. Toda torcida gostaria de ver seu time fazer algo parecido.
Mas eu queria falar hoje sobre os uniformes. E já antecipo um pedido de desculpas pelo texto mais curtinho que os dos últimos dias. Tenho virado madrugadas escrevendo e às vezes bate o cansaço. E voltarei ao tema uniformes no futuro, que é algo que me interessa — deu para notar nesta postagem aqui, antes de começar a Copa.
Até agora, de todos os uniformes vestidos pelas 48 seleções nenhum me encantou tanto quanto esse todo preto da Noruega. Sem faixas, frisos, marcas d’água. E nem preciso descrevê-lo com fartura de adjetivos. Basta ver as fotos aí embaixo.




Agora notem os números e as letras usadas para identificar os jogadores. Elas foram inspiradas nas runas nórdicas.
Runas nórdicas?
Recorro a uma definição bem elaborada que peguei numa página do Facebook sobre tradições escandinavas:
As runas eram um sistema de escrita usado pelos povos germânicos, tanto continentais quanto escandinavos, antes de adotarem o alfabeto latino por volta do século XI. Embora sua origem ainda não tenha sido comprovada, uma teoria cada vez mais aceita postula que teriam surgido a partir de alfabetos mediterrâneos antigos: o grego, o etrusco e o latino. As inscrições rúnicas mais antigas de que temos notícia são de c. 150 d.C., enquanto as mais recentes são de c. 700 d.C. na Europa continental e c. 1100 d.C. na Escandinávia.
Os alfabetos rúnicos escandinavos eram o Futhark Antigo (Elder Futhark), que durou de c. 150 d.C. a c. 800 d.C., e o Futhark Novo, que durou de c. 800 d.C. a c. 1100 d.C. O Futhark Antigo, usado para escrever o idioma chamado “proto-nórdico”, consistia de 24 runas organizadas em três grupos de oito, chamados aetts (“clãs”, em uma tradução livre), enquanto o Futhark Novo, surgido a partir da transformação do proto-nórdico em nórdico antigo, consistia em apenas 16 runas. Os alfabetos rúnicos escandinavos eram chamados de Futhark por causa de suas seis primeiras letras: F, U, TH, A, R e K. O Futhark Novo subdividia-se em três variantes quanto à sua caligrafia: runas de ramos longos, usadas na Dinamarca; runas de ramos curtos, usadas na Suécia e na Noruega, que eram uma simplificação das runas de ramos longos; e as runas sem aduelas, usadas em algumas regiões da Suécia e da Noruega em períodos posteriores, que eram uma simplificação das runas de ramos curtos.
Os designers da Nike criaram, a partir das runas nórdicas, uma fonte original para colocar nas camisas e calções dos jogadores da Noruega. É uma lindeza. Aí embaixo tem um pequeno texto de um perfil de publicidade que explica como foi feita a bagaça. E não foi a primeira tentativa, pelo jeito.
Ficou demais. Bem melhor que o abadá confuso e poluído da seleção brasileira. Conseguiram fazer uma camisa amarela feia, com detalhes em um verde que não é verde. Incrivelmente o uniforme azul com preto usado no segundo jogo, contra o Haiti, ficou melhor que o primeiro.
Mas, como disse, tratados sobre uniformes são assunto para outro dia. Agora preciso, realmente, dormir.
Pitacos a granel
Se isso aí embaixo for verdade, será a maior contratação da história do futebol mundial. O link para o perfil de “O Povo”, de Fortaleza, está aqui.
David Blesser é o nome por trás da escolha de “Tamanco no Samba”, de Cauby Peixoto, como trilha musical do lindo comercial da Brahma para a Copa. Falamos da música outro dia. O leitor Rodrigo Alcaide descobriu a autoria num comentário de post do Instagram. E é o próprio davidbessler que explica como aconteceu:
Quando era adolescente, descobri o Orlandivo num blog chamado Loronix. Desde então sou fã dele. Quando li o roteiro e conversei com os diretores de criação da agência de publicidade da Brahma, o nome do Orlandivo me saltou de cara. Por um grande acaso, veio uma lembrança do Facebook de 10 anos atrás de eu postando essa música na versão original. Pesquisando versões, achei essa do Cauby incrível e enviei à agência que pirou, apresentou à AMBEV e acabou sendo unanimidade.
No meu blog, costumo publicar coisas como essa charge aí embaixo sob a rubrica “no comments”. O autor se chama Meneguin. Para conhecer seu trabalho, é só entrar aqui
Semana passada Lewis Hamilton venceu pela primeira vez com a Ferrari e ficou muito emocionado. Agradeceu a equipe e os fãs por “me lembrarem de quem sou”. Depois, adaptou a frase para uma postagem em suas redes sociais. “Remember who you are”, escreveu, junto a uma foto no pódio. O piloto inglês tem esse hábito, de propagar palavras de incentivo a seus seguidores, quase sempre tendo como pano de fundo as enormes dificuldades pelas quais passou na infância para correr de kart, primeiro, e de carro, depois. É desnecessário dizer que tudo passava (e passa) pela cor de sua pele.
Não acompanho os perfis de Neymar, mas creio que ele leu o que Hamilton escreveu e repetiu a frase depois de sua estreia na Copa. Lewis comentou. São amigos. Hamilton, que gosta de futebol, costuma dizer que torce para a seleção brasileira porque se identifica muito com o país.
Também no meu blog, costumo publicar coisas como a notícia acima sob a rubrica “one comment”. E, quase sempre, o comentário é uma palavra só. Hoje eu escreveria: escroto









Minha contribuição ao Data Gomes: https://drive.google.com/file/d/1-_hI83qrO6YN5GO_PoLJVSz9RLR6F6wE/view?usp=sharing
A Noruega conseguiu aquilo que muitas seleções tentam e poucas conseguem: parecer autêntica, moderna e comercial ao mesmo tempo. O detalhe das runas é fortíssimo. Muito bom!